CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (Itabira, 31.10.1902 - Rio de Janeiro, 17.08.1987) - poeta, contista e cronista brasileiro - considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX. Foi um dos principais poetas da segunda geração do Modernismo brasileiro. Drummond teve suas crônicas (ficções e “causos” escritos) publicadas no Jornal do Brasil reunidas num livro, “Boca de luar” (Ed. Record, 1984). Nas páginas 19 a 24 nos deparamos com a crônica denominada “Bela noitada”, que reproduzimos abaixo. O curioso é que, para denominar os personagens e lugares, Drummond utiliza nomes de medicamentos homeopáticos. Alertamos que foi mantida a forma como os medicamentos foram referidos pelo autor, mantendo-se os erros de nomenclatura e grafia.
Bela noitada
“Foi um jantar memorável o que o casal Gelsêmium Sempervirens ofereceu sexta-feira passada em sua mansão da Gávea ao príncipe Cocculus Índicus. Memorável por tudo, a começar pela presença do que de mais fino tem a sociedade carioca, desde o Sr. Agraphis Nútans que acaba de trocar o hábito de monge da Ordem de Áctea Racamosa pela pasta de executivo da Bórax veneta ( sua experiência religiosa, como se comentava, durou nada menos de cinco anos ) até a magnífica Sra. Verátrum Álbum, marechala de elegância na corte de Bruxelas.
Entre cinquenta outros convidados, desfilaram Chelidônium Május, seu novo par, a Sra. Lachésis Mútus, o bachelor Ranúnculus Bulbósus, as irmãs Pulsatilla (Rhus vai dirigir um curso de terapia vibracional em Rio das Ostras, para quinze privilegiados), o deputado pedessista Kallinus Bichrômicum, a diretora da Hépar Súlfur, a Sra Nátrum Muriáticum, radiante por haver firmado contrato com o governo iraniano contrato para fornecer dez milhões de toneladas de chocolate hifrargírico (o hockydra de sua fábrica de Drosera do Sul), o artista gráfico e ator de TV Sambúcus Nigra, os casais Spigélia Anthelmia, Thúja Occidentalis, Pedéphillum Peltátum. E outros.
O príncipe Sempervírens, em uma de suas melhores noites, depois de submeter-se à maratona de festas em sua honra, demonstrou mais uma vez que para ele não há segredos na arte de devassar substâncias espessas: adivinhou que a Sra. Urtica Úrens trazia no interior de um camafeu, nada menos que uma inscrição em língua silícea, destinada a afugentar energias negativas, substituindo-as por positivas. Deste camafeu só existem três exemplares no mundo. Sempervírens não só identificou a peça, como leu o texto mágico.
Os assuntos que animaram a reunião foram variadíssimos. A situação política foi considerada tranquila, uma vez que a candidatura do ex-governador Eupátrum Perfoliátum à Presidência é a que apresenta melhor perfil para o cargo, nos termos prefixados, e, contando com a simpatia popular, dispensa não só a eleição direta como até a indireta: ele pode já ser considerado o Pré da República. A seu lado, o deputado Férrum Phosphoricum recebia cumprimentos; é quase certo que será o futuro Ministro da Justiça. O do Planejamento será possivelmente Azáricus Muscárius, se não for Antimônius Crúdum, também presentes e fartos em sorrisos.
China Sempervírens, a anfitriã, esplendia num vestido plúmbios metállicum assinado por Spôngia, e as convidadas não faziam por menos, em toaletes que atestavam o talento de costureiras como Tabácum, Glonoínum e Fórmica Rufa. Já o cardápio, testemunhando a grife de Phetelácea, simplesmente ébaíu os convivas com um médaillon da arnica montana que será lembrado durante 15 anos. O chefe mostrou ainda sua garra subscrevendo a sobremesa de harmális virgínica que pela primeira vez se serviu ao ponto no Rio de Janeiro, e foi saudada com palmas.
Gelsêmium, ao lado de China, foi o anfitrião perfeito que comprovou mais uma vez sua reputação de grand seigneur dos tempos da Ilha Grande. Negou que esteja pensando em vender seu complexo industrial da baixada de Cápuum, pois, justamente deseja transformá-lo em condomínio com seus 3,5 mil empregados, além de contratar mais 2,6 mil como contribuição para desfazer a balela de que há crise de desemprego no País. Esta declaração foi aplaudida com entusiasmo, e o jornalista Cóccus Cácti lançou logo a idéia de Gelsêmium ser aclamado o Homem de Hipervisão de 1983, pois enxerga mais longe e mais alto do que o comum dos empresários.
Homem encantador, o príncipe Cocúlus convidou a todos para esticada no Mercúrius, o que foi aceito sem discussão. Como ele jamais usou cartão de crédito, mesmo porque essa instituição é proibida em seu reino de Íris Versicólor, e não carrega dinheiro no bolso por ser anti-higiênico, a despesa foi rateada por uma vaquinha entre todos os presentes e mais alguns motoristas que serviam aos convidados, tudo na maior alegria e descontração.
Cocúlus Índicus viaja hoje de regresso para Íris, com escalas em várias capitais da América Latina, onde, como aqui, tem numerosos amigos. A única nota desagradável da noite foi o desaparecimento de uma joia da Sra. Verátrum album que se sentou ao lado do príncipe no Mercúrius, mas ele consolou com um beijo nos lábios a perdedora, que, excitada, logo esqueceu o incidente.
Bela noitada, em última análise”.
Lendo este texto em 1988 achei que seria muito interessante usá-lo para que os alunos do curso de Homeopatia que eu coordenava, fixassem algumas das características dos medicamentos homeopáticos citados. Seria uma ferramenta a mais para o estudo da Matéria Médica Homeopática. Abaixo reproduzimos o texto com as devidas correções na nomenclatura dos medicamentos e pequenas adaptações.
Bela noitada de Carlos Drummond de Andrade
( Adaptado por Marcelo Pustiglione, 1989)
Apesar do grande sofrimento que o antecedeu, foi um jantar memorável o que o casal Gelsemium sempervirens ofereceu sexta-feira passada em sua mansão da Gávea ao Principe Cocculus indicus que infelizmente não se encontrava muito bem, afetado por estado vertiginoso ( provavelmente por ter passado a noite acordado cuidando de seu filho Stramonium que tivera uma daquelas terríveis crises de terror noturno).
Memorável por tudo, a começar pela presença do que de mais fino tema sociedade carioca, desde o Sr. Agraphis nutans que acaba de trocar o hábito de monge da Ordem de Actea racemosa ( devido seu insuportável defeito de roncar à noite ) pela pasta de executivo da "Borax veneta", renomada indústria produtora de medicamentos para aftas ( sua experiência religiosa, como se comentava, durou nada menos de cinco anos ) até a magnífica Sra. Veratrum album, grandiloqüente esbanjadora, marechala de elegância na corte de Bruxelas ( na realidade, uma maníaca depressiva ).
Entre cinqüenta outros convidados, desfilaram Chelidonium majus, indivíduo bilioso, e seu novo par, a Sra. Lachesis mutus, deslumbrantemente "produzida" transbordando pelo vasto decote; o bachelor Ranunculus bulbosus ( cabisbaixo por estar sofrendo de doloroso "cobreiro" ); as famosas solteironas irmãs Pulsatilla ( a prima Rhus não veio porque foi dirigir um curso de terapia vibracional em Rio das Ostras, para quinze privilegiados ); o deputado pedessista Kalium bichromicum, grande bebedor de cerveja que entretanto, lhe faz um mal terrível; a diretora da Hepar sulfuris calcareum ( importante fábrica de extintores de incêndio ), a Sra Natrum muriaticum, profundamente magoada por não ter sido aceito pelo governo iraniano contrato para fornecer dez milhões de toneladas de HSC ( um preparado a base de flor de enxofre e o raspado da camada média da ostra ) de sua fábrica de Drosera do sul ( onde, aliás, grassa grande epidemia de coqueluche ); o artista gráfico e ator de TV Sambucus nigra ( asmático com crises noturnas terríveis - dizem que acorda sufocado e transpirando muito, coitado !); os casais Spigelia anthelmia ( ele, portador de nevralgia facial do lado esquerdo; e, ela, com crises violentas de palpitação que se pode ver através da roupa ! ), Thuja occidentalis ( maldosamente chamados de "os verruguentos") e Podophyllum peltatum ( como bons brasileiros, sempre "sofrendo do fígado"). E outros.
O Príncipe sempervirens, em uma de suas melhores noites, depois de submeter-se à maratona de festas em sua honra, apesar de trêmulo, descobriu o que a Sra. Urtica urens, velha gotosa, trazia no interior de um camafeu, nada menos que uma inscrição em língua Silicea ( estranho idioma de um povo fraco e desmineralizado que não conta com nenhum caráter puntiforme; todas as letras são rombudas ), destinada a afugentar energias negativas, substituindo-as por positivas. Deste camafeu só existem três exemplares no mundo. Sempervirens não só identificou a peça, como leu o texto mágico ( sensibilíssimo ele, apesar de seu aspecto "embrutecido" ).
Os assuntos que animaram a reunião foram variadíssimos. A situação política foi considerada tranqüila, uma vez que a candidatura do ex-governador Eupatorium perfoliatum ( famoso por ter debelado grave epidemia de dengue na baixada fluminense ) à Presidência é a que apresenta melhor perfil para o cargo, nos termos prefixados, e, contando com a simpatia popular, dispensa não só a eleição direta como até a indireta : ele pode já ser considerado o "Prê da República". A seu lado, o deputado Ferrum phosphoricum, indivíduo "morno", recebia cumprimentos; é quase certo que será o futuro Ministro da Justiça. O do Planejamento será possivelmente Agaricus muscarius, que tem contra si o alcoolismo, se não for Antimonium crudum ( grande glutão, assíduo freqüentador de banquetes copiosos dos quais tem amargas recordações dois ou três dias depois ), também presentes e fartos de sorrisos.
China officinalis, anêmica anfitriã, esplendia num vestido Plumbum metallicum de paralisar qualquer um, assinado por Spongia tosta, que não compareceu por estar se recuperando de uma cirurgia de tireóide; as convidadas não faziam por menos, em toaletes que atestavam o talento de costureiras como Nicotiana tabacum ( famosa pelo estilo audacioso que deixa o ventre totalmente descoberto ), Glonoinum ( com seus enormes chapéus de abas largas, ótimos para refrescar a cabeça ) e Formica rufa, já aposentada devido nefrite gotosa.
Já o cardápio, testemunhando a "griffe" Ptelea trifoliata ( para mim de difícil digestão ), simplesmente "ébaíu" os convivas com um "médaillon" à Arnica montana ( bem batido, sangrando e caprichado no vinagre ) que será lembrado durante 15 anos. O chefe mostrou ainda sua garra subscrevendo a sobremesa de Hamamelis virginiana gelada, chamando atenção por sua coloração vermelha escura, quase roxa, que pela primeira vez se serviu ao ponto no Rio de Janeiro, e foi saudada com palmas.
Gelsemium, ao lado de China, foi o anfitrião perfeito que comprovou mais uma vez sua reputação de "grand seigneur"dos tempos da Ilha Grande. Negou que esteja pensando em vender seu complexo industrial da baixada de Capsicum, grande produtora de pimenta, devido a indolência de seus funcionários, pois, justamente ao contrário, deseja transformá-lo em condomínio com seus 3500 empregados, além de contratar mais 2600 como contribuição para desfazer a balela de que há crise de desemprego no País. Esta declaração foi aplaudida com entusiasmo, e o jornalista Coccus cacti, após limpar o catarro da garganta, lançou logo a idéia de Gelsemium ser aclamado o Homem de Hipervisão de 1983, pois, apesar da ptose palpebral, enxerga mais longe e mais alto do que o comum dos empresários ( na realidade sofre de diplopia decorrente de difteria que teve na infância ).
Homem encantador, o Principe Cocculus convidou a todos para uma noitada no Mercurius, o maior agito do momento, o que foi aceito sem discussão. Como ele jamais usou cartão de crédito, mesmo porque essa instituição é proibida em seu reino de Metallum album, e não carrega dinheiro no bolso por ser anti-higiênico, a despesa foi rateada por uma "vaquinha" entre todos os presentes e mais alguns motoristas que serviam aos convidados, tudo na maior alegria e descontração.
Cocculus indicus viaja hoje de regresso a Metallum, com escalas em várias capitais da América Latina, onde, como aqui, tem numerosos amigos. A única nota desagradável da noite foi o desaparecimento de uma jóia da Sra. Veratrum album que se sentou ao lado do Príncipe no Mercurius, mas ele consolou com um beijo nos lábios a perdedora, que, excitada, logo esqueceu o incidente.
Bela noitada, em última análise.